| Márcia Tiburi |
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Talvez, essa gaúcha seja a filósofa contemporânea mais popular entre as brasileiras devido a sua presença semanal no programa Saia Justa, do canal GNT, mas antes de integrar o elenco do programa ela já era conhecida no meio acadêmico. Graduada em Filosofia e Artes e mestre e doutora em Filosofia pela UFRGS, publicou livros de filosofia. Entre eles, a antologia As Mulheres e a Filosofia e Magnólia, que foi finalista do Jabuti em 2006. É professora da FAAP, do curso de formação de escritores da Academia Internacional de Cinema, colunista de revistas, além de conferencista. Toda essa atividade prova que seu perfil, de fato, não corresponde aos padrões televisivos mais superficiais. Seu comportamento e seu conhecimento compõem uma personalidade muito singular. Dona de opiniões contundentes, Márcia vez por outra deixa transparecer muita delicadeza seja na voz branda que faz todos pararem para ouvir ou nos detalhes dos gestos. Feminista, não se incomoda de expor sua opinião original ao criticar a sensualidade e a feminilidade, assim como você vai conferir nesta entrevista concedida com exclusividade ao Papo Íntimo. Com vocês, Márcia Tiburi. Papo Íntimo - Historicamente, a mulher viveu diversos tipos de agressão. Não tinha voz, dignidade ou direitos (ainda é assim em determinadas regiões do globo). Nos dias de hoje, a mulher sofre uma grande pressão social. Para ser bem-sucedida, ela precisa dar conta de muitas tarefas em casa, no trabalho, no casamento, entre os filhos, além de ser inteligente, bem formada, gentil e de estar dentro dos padrões de beleza. Em sua opinião, em que momento da história a vida da mulher vai ser menos penosa? Márcia Tiburi - Talvez quando houver uma justiça real, o que envolve a mudança da mentalidade em escala social e, sobretudo, familiar. Sabemos que mulheres que convivem com homens éticos neste caso, ou seja, não machistas, são mais felizes, pois têm um cotidiano com mais acolhimento, mais divisão de tarefas, mais companheirismo. Mulheres que vivem sós muitas vezes também são mais felizes. Portanto, a vida menos penosa à qual você se refere depende da liberdade e da auto-aceitação que as mulheres devem desenvolver sobre sua solidão ou sobre a partilha ética e justa de suas vidas. PI - A mulher é diferente do homem e tem necessidades diferentes das do homem. Ainda é correto desejar igualdade entre homens e mulheres ou, mesmo, igualdade de direitos entre homens e mulheres? MT - Igualdade de direitos, em princípio sim. Na verdade, quando se fala de igualdade de direitos, ninguém pode imaginar uma igualdade matemática, mas uma igualdade que se pauta por um princípio. Não é difícil entender isto. Os direitos das pessoas devem sempre ser adaptados a circunstâncias, mas valem como princípios. A própria igualdade é um princípio que pode valer como direito. Mesmo sendo impossível a matemática, considero necessário buscar a maior aproximação dos direitos: salários iguais, por exemplo. E não considero que “direitos das mulheres” num futuro ideal signifique qualquer protecionismo, porém hoje, é preciso muita atenção, pois as mulheres são aviltadas e sofrem muita violência física ou simbólica e, por enquanto, é preciso ainda buscar direitos que retirem muitas do fundo do poço da falta de direitos. PI - Você conquistou destaque. Sua voz representa em algum aspecto a voz de muitas outras mulheres. Você se sente privilegiada por ter formação e disposição para ocupar esse espaço? MT - Não consigo pensar na lógica do privilégio. Também não gosto da lógica do mérito. Para mim a questão da voz é um fato teórico e prático ao qual temos que ter atenção. Não falo da minha voz, mas da voz em geral, como idéia, e das vozes que devem participar do diálogo na construção de uma sociedade mais democrática justa. Mas sei muito bem que sou mulher e que, neste aspecto, minha voz humana tem uma função como terá a de qualquer ser humano que se pronuncie buscando sentido no que diz. PI - Que valores sociais você conseguiu alcançar para o si e o que pretende alcançar para as mulheres contemporâneas a você? MT - Para mim o maior valor é a ética. Que não é uma característica ou apenas um potencial, mas uma busca, uma labuta diária e difícil diante das paixões humanas. Nossas relações em todos os níveis dependem da introdução da ética em nossas vidas, em cada detalhe. E o que chamo ética? A capacidade de refletir sobre o que faço, o que sinto, o que posso ser e o que posso gerar no mundo no qual estabeleço relações de afeto, profissionais, privadas ou públicas. PI - Você tem uma filha. O que as meninas de agora devem aprender para viver uma vida plena como mulher? O que as mães devem garantir na educação de suas filhas? MT - Um pensamento livre e, a meu ver, alegria de viver independente dos padrões corporais e dos modismo em geral. Para isso, é preciso falar sobre tudo buscando esclarecimento, mas sobretudo, experiências humanas ricas. PI - E para quem tem filhos homens? Não é estranho que um ser educado por uma mulher saiba tão pouco sobre o universo feminino e tenha tão pouca habilidade para tratar a mulher com seu devido valor no mercado de trabalho, na vida amorosa...? MT - Os meninos devem ser educados como as meninas. Eu repito aqui a minha resposta à questão anterior. PI - Mulheres brasileiras são estigmatizadas pela sensualidade. Apesar de algumas se vangloriarem disso, essa definição é pejorativa, principalmente para quem nos vê do exterior. Como manter a feminilidade sem ser olhada como objeto? MT - No mundo inteiro, em todos os países, existem preconceitos contra as mulheres e, em grande parte defendidos pelas próprias mulheres. O olhar do exterior é predador em todos os sentidos. Veja o alto índice de estrangeiros devorando a sensualidade e sexualidade de crianças e adolescentes no litoral do nordeste brasileiro. Podemos fechar os olhos para isso? Fingimos que não é problema nosso. Pergunto: se a feminilidade é uma construção patriarcal de que ela nos vale? Foram os homens europeus, sobretudo, que inventaram a mulher objeto. Infelizmente, as mulheres mesmas são muito ignorantes sobre sua própria história para terem liberdade de ação sobre o que elas mesmas se tornaram. Para mim, se trata hoje de deixar de lado a sensualidade, porque ela é uma armadilha. Mas é claro que, se alguém quiser usá-la, use-a. Não se trata de tolher o uso consciente de ninguém. PI - Quais as principais diferenças entre um homem e uma mulher em posição de poder? MT - A diferença não pode, a meu ver, ser avaliada “entre homem e mulher”, mas de pessoa para pessoa. PI - Qual o futuro da mulher? MT - Se você me permite a brincadeira, poderíamos chamar uma vidente para responder. Mas falando sério, a meu ver, sem vidência alguma, o futuro é o da luta entre lucidez e covardia, entre liberdade e impotência. Creio que a ausência de liberdade que é comum a homens e mulheres será sempre uma constante histórica. Minha esperança é que no futuro, nos importemos mais com a condição singular de cada pessoa e menos com seu sexo. E que haja mais esclarecimento sobre sexo e ele seja menos uma armadilha como foi até hoje. |